Temperar o dia com momentos de mindfulness

Alan Wallace fala sobre a importância de introduzir momentos de mindfulness ao longo do dia.

por Sam Mowe

Durante um retiro recente no Garrison Institute, falamos com o professor de meditação e erudito Alan Wallace sobre como cultivar a quietude da mente, aumentar a produtividade e determinar se vale a pena investirmos o nosso tempo em certas atividades.

SM: Muitas pessoas têm a sensação de estarem sempre muito ocupadas e distraídas no dia-a-dia. O que está por detrás dessa experiência? Se praticarmos meditação regularmente, essa sensação desaparece?

AW: Há uma vasta gama de práticas meditativas que podem ser muito úteis e de diferentes maneiras. Mindfulness pode ajudar-nos a evitar a ruminação. O cultivo do altruísmo pode fazer surgir gentileza e um sentido de cuidado e de bondade no coração. Mas, seja qual for o método que decidimos aplicar, as práticas provavelmente ocuparão uma pequena percentagem do nosso dia. Assim, embora os métodos em si possam ser muito úteis, o que é mais importante, na verdade, não é quanto tempo passamos na almofada ou que método ou técnica usamos, mas sim, a qualidade de mente que mantemos como base. E para a maioria das pessoas – estudos psicológicos evidenciam isto muito claramente – a base é a ruminação. Cerca de 50%¹ do tempo, as pessoas estão a pensar em algo diferente da realidade que se apresenta naquele momento – estão a vaguear num futuro imaginário ou num passado que já deixou de existir. Não é muito produtivo, e além disso é muito cansativo.

Podemos transformar esse hábito em algo que não seja exaustivo e que seja produtivo. Mas isso requer mais do que simplesmente aplicar uma técnica aqui e ali. O tempo que passamos formalmente na meditação é o momento de semear, por assim dizer. Mas essas sementes precisam ser nutridas, adubadas e regadas ao longo do dia, e isso sim pode trazer alguma mudança significativa.

Vivemos num ritmo muito acelerado. Portanto, a primeira coisa a fazer é cultivar uma sensação de calma, porque estamos cronicamente tensos, contraídos e stressados, no corpo e na mente. Esse é o padrão, mas também podemos aprender a relaxar, libertar a tensão do corpo e deixar que a respiração flua sem impedimentos ao longo do dia – não apenas por 15 minutos enquanto estamos a meditar, mas alterando os nossos padrões. Quando não há nada em que precisemos pensar, então soltamos os pensamentos, voltamos ao momento presente e permanecemos atentos, presentes e lúcidos.

Podemos fazer isso 30 segundos aqui, um minuto ali, 20 segundos aqui, 2 minutos ali, ao longo do dia. Isso é aquilo a que eu costumo chamar de “temperar o dia”.

SM: Mencionou que este tipo de práticas pode ajudar as pessoas a tornarem-se mais produtivas. Pode falar um pouco mais sobre isso? O que estamos a produzir e por quê?

AW: Todos nós queremos ser produtivos, mas, é verdade, alguns de nós deveriam produzir menos. Se o que temos em mente não é útil para ninguém, exceto talvez para nós mesmos e para o nosso próprio bolso, então eu preferiria que fôssemos menos produtivos. Quando somos produtivos, se não estivermos a fazer algo que beneficie o mundo, estaremos a perder tempo ou a fazer algo destrutivo. Existem apenas três categorias de atividades: positivas, negativas ou neutras. Mas se desenvolvermos aspirações com maior significado, então seria bom, claro, se pudéssemos ser mais eficientes, eficazes e capazes de agir com menos desgaste.

Para isso acontecer, mais uma vez voltamos ao tema de cultivar e sustentar calma no corpo e na mente – uma tranquilidade contínua, uma presença mental, uma quietude interior – assim poderemos passar da quietude para a atividade. Quando a atividade acabar, voltamos à quietude. Desta forma, não ficaremos perpetuamente, cronicamente e viciadamente envolvidos em passar o tempo todo a saltar de uma atividade para outra, muitas das quais podem ser uma completa perda de tempo.

Portanto, por “produtividade”, quero dizer que podemos concentrar-nos na tarefa que temos em mãos por um período prolongado sem distração, sem cairmos em TDAH² – seja na hiperatividade ou no déficit de atenção – se houver uma sensação subjacente de calma, se não nos sentirmos frenéticos, acelerados, tensos e stressados. Assim poderemos dedicar-nos às nossas tarefas com frescura e clareza, e seremos capazes de ter acesso aos nossos reservatórios de criatividade e de intuição. Isso dá à nossa produtividade uma qualidade de clareza e de precisão.

SM: Tem alguma recomendação sobre como as pessoas podem saber se o que estão a produzir é benéfico e se vale a pena prosseguir? Como se pode ter certeza de que estamos a agir a partir desse lugar de clareza que acabou de descrever?

AWPara avaliarmos se a nossa atividade no mundo vale a pena, em primeiro lugar eu concentrar-me-ia na motivação. Será que nos estamos a dedicar a uma tarefa que, de certa perspectiva, pode parecer completamente mundana e ser simplesmente uma forma de ganhar a vida? Imaginemos, por exemplo, que estamos a trabalhar numa caixa registadora num supermercado, a receber o pagamento das pessoas e a entregar-lhes o troco. Eu poderia dizer: “Bom, esta é uma forma de ganhar a vida, mas é muito vazia de significado.” Se a motivação for vazia, então a tarefa também o será. Mas motivação é tudo. Podemos ter uma atividade e um meio de vida muito mundano e inútil, apenas para ganhar dinheiro, ou podemos assumir esse mesmo trabalho trazendo amabilidade, cuidado e atenção. Se oferecermos bondade àqueles com quem nos encontramos, então qualquer tarefa pode ser realmente muito valiosa. Não porque estamos a fazer isso de uma maneira diferente – vendendo com mais ou menos rapidez – mas porque a motivação pode mudar tudo.

Por outro lado, imaginemos que se trata de um médico, um professor, um enfermeiro ou qualquer outra posição em que se atende pessoas, se a motivação for apenas ganhar dinheiro, aumentar a reputação ou influência, conseguir uma promoção, etc., então, internamente, graças à motivação, esse trabalho não tem muito significado.

A questão seguinte, claro, é avaliar se o que fazemos com a nossa motivação está a funcionar. Trata-se de algo que realmente vale a pena fazer? Para responder a essa pergunta, eu ponderaria duas direções. Primeiro, o que estamos a fazer por nós mesmos? Conseguimos ver que estamos num processo de amadurecimento e crescimento, que as qualidades que valorizamos estão a ser nutridas conforme passam os dias, as semanas, os meses? Se assim for, então estamos perante uma atividade com significado. Por outro lado, temos que observar o impacto. Vejamos como estamos a influenciar aqueles ao nosso redor. Se acharmos que há algum benefício, que estamos a ajudar as pessoas a resolver problemas, então isso é excelente. Se estamos a ajudar as pessoas ao nosso redor a encontrar o que elas procuram em termos de felicidade, e do nosso lado há uma boa motivação, então podemos ter certeza de que estamos a agir com propósito. Nesse caso, estaremos a impactar o mundo e a ajudar a resolver problemas, aliviando o sofrimento e a angústia, e a ajudar as pessoas a encontrar a felicidade que procuram. Isso não precisa ser em grande escala. Não tem que ser algo que chame muito à atenção. Pode ser de forma bem discreta. Mas com sete biliões de pessoas neste planeta, se, destas maneiras discretas estivermos a contribuir para o bem-estar daqueles que nos rodeiam e a ajudar a aliviar o sofrimento, isso tem certamente muito significado.

¹Matthew A. Killingsworth and Daniel T. Gilbert, “A Wandering Mind Is an Unhappy Mind”

²TDAH: Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade

Fonte: Tradução do artigo “Seasoning the Day with Sanity”, By Sam Mowe por Jeanne Pilli para Português (BR) e adaptado para Português (PT) por Mind Revolution